A cidade do amanhã por Luiz Fernando Janot

A cidade do amanhã por Luiz Fernando Janot

Texto de Luiz Fernando Janot, arquiteto e colunista do jornal O Globo

A partir de meados do século XIX, ocorreu uma expressiva migração populacional do campo para as cidades em busca de empregos gerados pelos novos meios de produção industrial. Esse movimento se consolidou no século seguinte, induzindo as cidades a crescerem e se expandirem para além dos seus limites territoriais. Conhecidas como metrópoles, essas grandes cidades passaram a formar regiões metropolitanas com as cidades vizinhas que gravitam no seu entorno.

Diante da estimativa de crescimento da população mundial de 7,2 bilhões de pessoas para dez bilhões em 2050, ou seja, um aumento de aproximadamente 50% em apenas 35 anos, pensar o futuro das metrópoles nos obriga a pensar, simultaneamente, o futuro da Humanidade. Três preocupações despontam neste momento: o desequilíbrio das condições climáticas; as dificuldades de produção de alimentos e moradia para esse imenso contingente populacional; e o agravamento da desigualdade econômica e social.

Não há dúvida de que esse conjunto de fatores enseja uma reavaliação dos hábitos comportamentais das nossas sociedades e dos seus modelos de desenvolvimento. A produção de alimentos em larga escala está diretamente relacionada aos condicionantes ambientais, especialmente o aquecimento global, a poluição atmosférica, as variações de temperatura, as alterações no regime de chuvas e a escassez de recursos naturais. Por sua vez, a falta de moradia tende a se agravar à medida que a concentração de renda se amplia e a desigualdade social contribui para a desagregação do tecido urbano das cidades.

Cidades são símbolos da existência humana e, como tal, refletem nos seus espaços públicos e privados a diversidade de valores culturais estratificados ao longo da História. Para se adequarem ao processo evolutivo das sociedades, as cidades se transformam permanentemente. Cidades imutáveis perdem a sua razão de ser. Um exemplo de cidade que luta desesperadamente para sobreviver é Detroit, símbolo da poderosa indústria automobilística americana, que foi atingida pela nova realidade econômica mundial. Outras cidades espalhadas pelo mundo deverão passar por processo semelhante.

Marx, ao se referir às grandes transformações sociais e culturais introduzidas pela modernidade europeia durante o século XIX, foi taxativo, afirmando que “todas as relações fixas e enrijecidas focadas na antiguidade e em veneráveis preconceitos e opiniões foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes mesmo que cheguem a se consolidar. Tudo o que é sólido desmancha no ar”. O que diria, então, das recentes transformações de costumes decorrentes do emprego das novas tecnologias digitais, da velocidade dos meios de comunicação, da produção industrial globalizada e da desnacionalização do capital financeiro?

O que hoje está prevalecendo na maioria das sociedades é a ideologia do aqui e agora, ou seja, viver como se não existisse futuro e muito menos passado. O tempo das utopias foi esquecido, e o sonho de ver uma sociedade mais justa, ao que parece, está sendo posto de lado. Ideias para tornar as cidades mais atraentes serão sempre bem-vindas; afinal, é de ideias que se constrói o futuro. Em regimes democráticos, essas ideias precisam ser amplamente discutidas de forma clara e transparente. No entanto, pela frivolidade com que as cidades estão sendo tratadas, tudo leva a crer que elas são vistas como se fossem mercadorias descartáveis.

Em seu livro “Cidades invisíveis”, o saudoso escritor italiano Italo Calvino afirmou: “De uma cidade não aproveitamos as suas sete ou 77 maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.” Talvez seja esse o caminho mais seguro para se encontrarem as respostas adequadas para a construção de uma cidade mais justa, humana e sustentável.

(O texto foi publicado originalmente no site do jornal O Globo, em 30 de agosto de 2014)



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