Arquitetura inclusiva

O conceito de Desenho Universal compreende projetos arquitetônicos, design de produtos e embalagens e como são oferecidos serviços para toda a população, incluindo pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, gestantes e idosos. “A edificação tem de atender a todos, independentemente de suas características físicas ou sensoriais, sejam elas permanentes ou temporárias”, diz a arquiteta Silvana Cambiaghi, coordenadora da Comissão de Acessibilidade do CAU/SP e presidente da Comissão Permanente de Acessibilidade (CPA) da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo.

Na opinião dela, “os arquitetos brasileiros devem aprofundar a discussão a respeito da aplicação do Desenho Universal nos projetos. Estamos em um estágio de apenas cumprir normas para garantir uma acessibilidade mínima que a lei exige. Ainda estamos longe da situação ideal”.

Apesar das críticas, Silvana Cambiaghi, que também é autora do livro Desenho Universal – Métodos e Técnicas para Arquitetos e Urbanistas e sócia do escritório Design Universal Consultoria, demonstra otimismo com a crescente preocupação dos responsáveis por espaços culturais, em oferecer não somente o acesso, mas também uma programação para um público diversificado.

Para Amanda Tojal, museóloga, educadora e doutora em Ciências da Informação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, “ter acesso à cultura é um direito de todos, incluindo a pessoa com deficiência”. Consultora em Acessibilidade e Ação Educativa Inclusiva para públicos com deficiências, ela afirma que “a inclusão vai muito além de colocar rampas de acesso para cadeira de rodas ou piso tátil para deficientes visuais. A inclusão é um trabalho pleno, abrangente, que envolve desde a concepção arquitetônica de um espaço e sua adequação a diferentes públicos até o treinamento e a sensibilização dos colaboradores”.

Viviane Sarraf, doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), que dedica sua vida acadêmica e profissional ao desenvolvimento teórico e prático da acessibilidade cultural para pessoas com deficiência, concorda. “É necessário atuar em várias frentes, de modo que a edificação e o conteúdo sejam acessíveis. E não me refiro apenas aos surdos, aos deficientes visuais ou às pessoas com deficiência física. A acessibilidade também deve ser pensada para o público com deficiência intelectual, vencendo barreiras atitudinais, no sentido de como se relacionar, desenvolvendo a comunicação por meio de uma escrita simples e utilizando recursos sensoriais”, assinala a especialista, que, entre outros projetos, concebeu os recursos de acessibilidade do Centro de Memória Dorina Nowill.

 

Centro de Memória Dorina Nowill mostra a história dos cidadãos cegos e suas lutas. Foto: Divulgação.

 

A instituição, que é dedicada às pessoas com deficiência visual, criou esse espaço cultural com o objetivo de apresentar a história dos cidadãos cegos e suas lutas no Brasil e no mundo. Fundado em 2002, trata-se do primeiro museu brasileiro a considerar a cultura da deficiência visual como patrimônio histórico. Seus recursos de acessibilidade incluem exposição em formato acessível (ferramentas táteis e sonoras, piso tátil e audiodescrição, por exemplo), equipamentos para escrita Braille, materiais didáticos adaptados, publicações em formatos acessíveis, esculturas e objetos disponíveis ao toque.

“Se pensarmos em acessibilidade em espaços públicos culturais incluídos, é obrigatório que sejam dadas soluções de acesso e mobilidade à edificação e em seu entorno”, afirma Edson Jorge Elito, arquiteto responsável, entre outros projetos, pela Escola de Astrofísica, um exemplo reconhecido de Arquitetura inclusiva. “As soluções devem ser previstas desde a concepção do projeto; elas devem constar no seu detalhamento e continuar durante os serviços da obra, para que a execução fique de acordo com o que foi planejado. Além disso, durante o uso do equipamento público devem ser adotadas medidas de manutenção, adaptação e renovação dos elementos e componentes, para que seja mantida sua utilização”, esclarece.

Elito afirma, ainda, que diversas formas de abordagem são necessárias na elaboração do projeto, para que ele tenha uma acessibilidade efetiva. “Isso deve ser um dos fundamentos do projeto e não um item a ser inserido para atender à norma e à lei”, faz questão de frisar.

De fato, a sinergia entre a proposta inclusiva e a concretização do projeto arquitetônico é elemento-chave para se alcançar o resultado pretendido. “Hoje, muitos arquitetos já pensam a questão da acessibilidade como conceito: toda exposição tem que ser acessível”, salienta Amanda Tojal, da ECA/USP. Mas ela observa que a ênfase ainda está na acessibilidade física, inclusive por conta das diretrizes presentes na norma ABNT 9050. “Uma grande dificuldade está na concepção cognitiva, comunicacional.

O arquiteto trabalha a questão da acessibilidade física, da altura das bancadas ou a largura das portas, por exemplo. Mas, quando você entra na questão cognitiva, as coisas se complicam. Como entender uma obra de arte se você tem deficiência intelectual ou se não enxerga? Como você entenderá um vídeo se não escuta o áudio? É aí é que está a grande questão, porque isso interfere na curadoria”, ela reflete. “Muitas vezes, o curador concebe toda uma exposição sem pensar na questão de acessibilidade e apenas no final do processo busca uma assessoria para adequá-la aos diversos públicos”, conta.

 

Escola de Astrofísica

Edson Elito observa que o caráter da intervenção necessária para tornar um determinado espaço acessível varia de acordo com algumas premissas: se a edificação já existe ou é uma obra nova, que poderá ser adequada desde o projeto inicial; em caso de um edifício já existente, se ele tem importância histórica e cultural, e se é tombado pelos órgãos de patrimônio; que tipos de atividades serão realizadas, bem como os fluxos externos e internos que serão esperados; os tipos e quantidades de usuários e, também, os equipamentos e o mobiliário.

O arquiteto salienta que as leis e normas de acessibilidade são um grande apoio para instruir o que deve ser previsto, principalmente nas questões de ergonomia e necessidades de mobilidade e manobra. Mas destaca a necessidade de constantes adequações e atualizações da normatização. “Há que saber interpretar o prescrito na norma para criar soluções específicas para cada projeto, utilizando a criatividade, de forma que os ambientes sejam, além de acessíveis, também confortáveis, belos e arquitetonicamente interessantes”, ele explica.

 

A Escola de Astrofísica é um exemplo reconhecido de arquitetura inclusiva. Foto: Divulgação

 

A Escola Municipal de Astrofísica, inaugurada em 25 de janeiro de 1961, atrás do Planetário, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, é destacada pelo próprio arquiteto. Com projeto de Roberto José Goulart Tibau, o edifício apresenta elementos da Arquitetura moderna praticada no Rio de Janeiro até a década de 1950, unidos a conceitos da escola paulista. “É um exemplar de Arquitetura híbrida e contraponto ao conjunto de edificações do Parque Ibirapuera, que foram projetadas pelo arquiteto Oscar Niemeyer”, afirma Elito. Tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), o edifício passou por restauro, conduzido pelo escritório de Elito.

“Queríamos recuperar as características do projeto original, além de dotar a edificação de ambientes e infraestrutura capazes de responder às necessidades decorrentes de seu novo projeto educacional, pedagógico e científico, sob a coordenação dos arquitetos André Pavão e Marcos Cartum.

Foram adotadas também rampas, sendo uma em estrutura metálica sobreposta ao piso existente e a segunda, de concreto, assentada sobre o solo. “Outra solução importante está no entorno do edifício, onde criamos um caminho acessível desde a rua mais próxima até a entrada da escola, passando também pelo Planetário”, comenta.

 

O desafio de integrar

Amanda Tojal ingressou no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP em 1998 e, algum tempo depois, tornou-se tia de uma menina com deficiência intelectual. Foi assim que ela começou a se interessar pelo tema da inclusão. “Baseei minha pós-graduação no estudo desses públicos e do que eles necessitavam. Fiz o mestrado tendo Ana Mae Tavares Bastos Barbosa, pioneira em arte-educação, como minha orientadora, e alguns anos depois o programa que elaboramos foi implantado no MAC-USP. Em 2013, saí do museu e aceitei o convite feito por Marcelo Araújo e Mila Chiovatto, para implantar o Programa Educativo para Públicos Especiais (Pepe) na Pinacoteca do Estado de São Paulo”, diz.

 

Galeria Tátil da Pinacoteca: exposição completamente voltada aos deficientes visuais. Foto: Gabriel Cardoso/Pinacoteca do Estado de São Paulo

Um dos pontos-chave do trabalho desenvolvido por Amanda Tojal é a elaboração de réplicas em relevo das obras expostas, de modo que as pessoas possam tocá-las e “sentir” o que as pinturas e fotos retratam. “Mesmo as pessoas não deficientes são estimuladas a participar da brincadeira, colocando vendas nos olhos e experimentando essa sensação. Na Pinacoteca, onde permaneci até 2012, implantei a galeria tátil, que está lá até hoje”, comenta.

Segundo Amanda Tojal, “trata-se de uma exposição completamente voltada aos deficientes visuais e à tradução para Libras das obras do jardim. Considero a Pinacoteca um case, um grande exemplo, porque é um trabalho institucional e essa é a diferença. Ali temos um programa permanente apoiado pela direção; então, faz parte do conceito do museu ter esse atendimento. Há também uma equipe e um agendamento especializados, uma educadora surda que compreende profundamente as necessidades do público com deficiência auditiva. Quando esse público chega à Pinacoteca e se sente bem atendido, encontrando atividades que o absorvem de verdade, vê-se estimulado a retornar. O boca a boca também funciona. A inclusão faz parte da diversidade e você tem que respeitar tanto as diferenças quanto os direitos de essas pessoas poderem participar de igual para igual. Então, esse é o diferencial da Pinacoteca: o programa sempre vai continuar, porque ele é u um projeto institucional, não isolado”.

“Não existe uma solução única, pois cada grupo tem suas próprias características”, alerta Viviane Sarraf. E Amanda Tojal acrescenta: “museu, centro cultural, espaço de lazer: nada disso é lugar de informação, mas de vivência. Esse é o grande desafio: proporcionar condições para a pessoa com deficiência decidir suas próprias experiências com total autonomia”, conclui.

 

 

Texto CAU/BR



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