Chamas na USP por José Armênio de Brito Cruz

Chamas na USP por José Armênio de Brito Cruz

Texto por José Armênio de Brito Cruz, arquiteto e presidente do IAB-SP.

O incêndio na FAU não é só fruto do descaso. A tentativa de destruição de um pensamento comprometido com o progresso aflora mais uma vez.

Sintoma de uma involução trágica do pensamento arquitetônico das últimas décadas, o incêndio ocorrido na semana passada no prédio da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) é inaceitável. O desprezo com a materialidade e a técnica e a exacerbação da política e da imagem na construção do território colocam o país nessa situação.

É o que se chama de crise da infraestrutura. O Estado não teve habilidade para dirigir investimentos para a infraestrutura e a preservação de seus bens culturais e urbanos. A incapacidade de manutenção de um patrimônio cultural brasileiro reconhecido e premiado internacionalmente como o prédio da FAU-USP é sintoma da falta de direção no tratamento do território e das nossas cidades. Recursos não faltaram.

O caso do incêndio e consequente interdição das salas de aula é ainda mais grave. O prédio não á apenas um ícone da arquitetura brasileira e um patrimônio tombado. O prédio sedia a matriz do pensamento que norteia a definição e construção do território nacional, como são (ou deveriam ser) todas as escolas de arquitetura do país. Pelo menos assim pensou o seu criador, João Batista Vilanova Artigas (1915-1985).

Diferentemente de outros arquitetos mais afeitos ao culto da própria personalidade, Artigas criou uma escola na acepção da palavra, não só um prédio com atividades pedagógicas, mas de fato uma maneira de pensar a arquitetura com compromisso indissolúvel com o país, o povo brasileiro e sua história.

Apesar de ter sido a origem da FAU-USP, esse pensamento, por ser impulsionado pela liberdade e humanismo, sempre foi alvo de ataques. De um lado, explicitamente pelas forças contrárias ao desenvolvimento em uma perspectiva popular e nacional. De outro, veladamente, por forças sectárias datadas –uma destruição intelectual a partir da criação de corruptelas do pensamento original ou mesmo a oposição à força da arte e do conhecimento.

O incêndio no prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo nada mais é do que mais uma mostra desse embate intelectual. A necessária afirmação de que este é o nosso lugar, e todas as intervenções aqui realizadas devem ser guiadas pela busca da excelência técnica, opõem-se à visão de que o projeto é um instrumento eleitoral ou do lucro. Por isso, o prédio chegou a esse estado.

Então, o incêndio não é somente um sintoma do descaso. A tentativa de destruição de um pensamento comprometido com o progresso, a sustentabilidade e o futuro do país aflora mais uma vez à superfície.

A cassação do professor Artigas em 1969, a negação do notório saber pela congregação da escola em 1980, as humilhações a que foi submetido na sua reintegração foram os capítulos anteriores. Nenhum deles dobrou a força do pensamento de Artigas e não será este um obstáculo intransponível.

Em 2015, será comemorado o centenário de Artigas. Pode ser o ano da virada do prédio da FAU-USP, com a sua reinauguração simbolizando a retomada de um processo de construção do território guiado por um projeto de qualidade que oriente os investimentos públicos e que nos liberte da condição de estrangeiros na nossa própria pátria.

JOSÉ ARMÊNIO DE BRITO CRUZ, 54, arquiteto graduado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, é presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil de São Paulo.

(O texto original foi publicado no site da Folha de S. Paulo, na seção Opinião, no dia 30 de abril de 2014)



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