Cohousing, a “república” de velhos, conquista espaço em Portugal

Cohousing, a “república” de velhos, conquista espaço em Portugal
Texto do jornalista Paulo Markun para o blog Em Tempo, da Folha de S.Paulo

O conceito do cohousing surgiu na Dinamarca nos anos 70 do século passado – hoje 8% dos dinamarqueses vivem nesse tipo de moradia. A expressão foi cunhada a partir de colaborative houses e designa comunidades de idosos que se organizam para criar condomínios residenciais onde cada um tem seu espaço, mas todos compartilham determinados serviços e áreas.

Essas “repúblicas” para idosos estão conquistando adeptos em outros países com a chegada da geração de baby boomers à velhice. Aqui em Portugal, a modalidade deve ser incluída na nova Lei de Bases da Habitação, que vai regular o mercado imobiliário, estabelecendo a função social da moradia e delimitando o papel do Estado. É daqueles projetos que geram muita polêmica e pouco consenso: nem dentro da Geringonça, a engenhoca política que levou o PS ao poder há acordo sobre as novas regras.

Mas no dia 12 de fevereiro, o Grupo de Trabalho da Habitação, Reabilitação Urbana e Políticas de Cidade que está ouvindo os interessados no assunto abriu espaço para que o ex-presidente da Câmara Municipal do Porto (o equivalente ao prefeito no Brasil), Nuno Cardoso apresentasse os argumentos da entidade que dirige, a Hac.Ora – uma associação sem fins lucrativos, fundada em 2018 só para desenvolver o cohousing em Portugal.

Em Lisboa, funciona há dois anos, no bairro Padre Cruz, um equipamento intergeracional, que tem creche e espaço para jovens no térreo e residências assistidas para idosos com autonomia, nos andares de cima. Cada apartamento é diferente e os moradores podem trazer seus móveis e objetos de decoração, partilhando os espaços comuns, distribuindo as tarefas e organizando festas em que recebem as crianças, os jovens e seus familiares. Há outra unidade do gênero em obras nesse momento, em nova parceria entre a Câmara Municipal e a Santa Casa de Misericórdia local.

Criado na cidade do Porto, o Programa Aconchego aproxima pessoas acima de 60 anos, que tenham um cômodo extra em casa  com estudantes de outras cidades que buscam moradia. Os inquilinos não pagam aluguel, mas se comprometem a acompanhar a rotina do senhorio e colaborar para sua qualidade de vida. A iniciativa foi premiada recentemente num concurso internacional da Innovation@Home.

Dentro de um ano e meio, devem começar a funcionar dois projetos desenvolvidos pela Santa Casa de Misericórdia do Porto. Além de recuperar e reabilitar um antigo bairro só para mulheres viúvas, a entidade está reformando um prédio no centro da cidade. Outra iniciativa no Porto é a das Residências Partilhadas Seniores, fruto de uma parceria entre a Domus Social, empresa pública de habitação da cidade com outras entidades, mas que por enquanto só conseguiu viabilizar quatro apartamentos, além de financiar a reabilitação de 59 moradias no centro da cidade, parte delas para manter seus moradores na propriedade.

Essa é uma prática recomendada pelos geriatras e gerontólogos – manter o idoso em sua  localidade, adaptando as moradias. Um estudo feito em 2011 por dois pesquisadores portugueses, Ignacio Martin, da Universidade do Aveiro e Susana Rito, do Centro Paroquial e Social São Nicolau, em Lisboa, mostrou como são precárias as moradias dos mais velhos nesse bairro tradicional da capital portuguesa. A dupla entrevistou moradores entre os 83 e 94 anos e constatou que as habitações ficam, principalmente, no terceiro andar dos prédios ou em andares superiores (53,8%), com acesso apenas por escadas (92%), em apartamentos construídos antes de 1919.

Na grande maioria, são imóveis alugados com contratos antigos (de 1968 na média) e que pagam alugueres relativamente baixos – valor médio mensal de 52 euros, para um salário mínimo de 600 euros (vale assinalar que muitos idosos recebem menos que isso por mês).

Raros são os que tem máquina de lavar, instalação de gás ou aquecimento nas moradias. A maior parte (61,5%) vive só. Outros 30,8% vivem com os senhorios, arrendatários ou subarrendatários e apenas 7,7% com seus cônjuges. Nenhum imóvel tem plano de fuga. Só 39% tinham os números de emergência perto dos telefones. As casas tem pisos e degraus sem condições mínimas de segurança (76,9%), escadas sem corrimão de ambos os lados (100%), e banheiras e vasos sanitários sem barras de apoio (92.3%).

No próximo post volto ao assunto, falando do Brasil.

 

 

Foto: Idealista/news



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