O Globo: ‘A arquitetura de agora valoriza o ambiente social’, diz Sérgio Magalhães

O Globo: ‘A arquitetura de agora valoriza o ambiente social’, diz Sérgio Magalhães

Texto de Karine Tavares, jornalista do jornal O Globo

Créditos da foto: Fabio Seixo / Agência O Globo

Responsável pela campanha que acaba de dar ao Rio o direito de sediar o maior evento da arquitetura mundial, Sérgio Magalhães, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), diz que a fase das construções espetaculosas mundo afora já foi superada. E que a arquitetura, agora, investe no social. O Rio foi escolhido, domingo passado, para receber o congresso da União Internacional dos Arquitetos, derrotando Paris e Melbourne.

O que significa para o Rio e o país sediar o Congresso Mundial da União Internacional dos Arquitetos?

O mais significativo é que durante os seis anos que precedem o evento teremos uma troca de informações e uma série de outros eventos. A arquitetura e as cidades materializam o sonho que a gente tem como sociedade, e é preciso que esses temas venham para o cotidiano da política brasileira. O Estado brasileiro não assume sua responsabilidade de organizar o território. Então, temos situações terríveis como a falta de saneamento. Quase 30% da população do Rio leva quase duas horas para ir de casa ao trabalho. Então, precisa haver uma planejamento. E um congresso como esse em que compromissos internacionais são assumidos deixa como legado a formulação de propostas importantes.

O senhor consegue imaginar quais serão as grandes questões urbanas em 2020, quando o congresso mundial estará acontecendo?

Tem uma questão que é vital e pouco avaliada: a ausência de serviços públicos amplos. Tem que ter iluminação, segurança pública, limpeza urbana. As pessoas acham que segurança é questão de polícia, mas de fato ela está intimamente ligada ao urbanismo. A cidade que vai crescendo desordenadamente tem mais dificuldade de iluminar todas as suas vias, de ter bons equipamentos de educação, cultura, saúde. Será uma cidade mais difícil de se manter limpa, de ter saneamento. E ter segurança também. Quando a população não tem acesso a esses serviços, a democracia se enfraquece. A dissociação entre prestação de serviço público e urbanismo é antidemocrática e antissocial. E esse deve ser o tema central. A mobilidade, por exemplo, é só um dos aspectos. Temos dificuldades na economia, na educação e vamos deixando o urbanismo de lado. A cidade é um organismo, um ser vivo, e deve ser tratada como um conjunto.

Até lá teremos escapado do caos urbano que se anuncia? Alias, há solução para ele?

Para pensar numa solução, tem que ter consciência do problema. E depois não deixar que esse processo continue. As cidades não crescem por natureza, crescem porque as pessoas decidem assim. Por isso, as políticas públicas não podem ser omissas. O Rio não tem planejamento há muito tempo. A grande mudança estratégica para a cidade é o Centro recuperar o seu protagonismo. Isso permitirá que Zona Norte, São Cristóvão, Benfica, Caju e o próprio Centro sejam melhor aproveitados para habitação, emprego, cultura. E aí, os serviços públicos vão poder melhorar. Agora, é importante, também, que não se permita haver expansão para áreas que passam por obras importantes, como Transoeste e Arco Metropolitano. Não tem porque ocupar áreas que estão vazias. Eventualmente, o dono do terreno pode ganhar alguma coisa, mas o resto da sociedade vai passar a vida inteira pagando por isso.

A arquitetura que se faz hoje no mundo parece primar pelo espetacular, pelo grandioso. Como vê isso?

As grandes estrelas já deram sua contribuição e estão se retirando para o vestiário. Essa era do espetacular, em que o edifício aparece sozinho como se no seu entorno não houvesse nada, já está superada. É uma exacerbação de um momento que talvez corresponda ao neoliberal na economia. Mas hoje isso está muito concentrado na Ásia, no Oriente Médio, em países com mais concentração de renda. Nos países desenvolvidos, o que mais interessa é ter um ambiente agradável, confortável, onde jovens, velhos, ricos, pobres, deficientes, todos possam circular bem, sem dificuldades. O pedestre é o protagonista. A arquitetura de agora valoriza o ambiente social. Nova York é um bom exemplo de cidade que investe em sistemas coletivos.

O senhor está falando de sustentabilidade, certo? Quais as chances de termos cidades sustentáveis de fato?

Sim. A gente sempre pensa em economia de energia e água quando fala em sustentabilidade, mas o mais importante é a vida coletiva. A qualidade essencial das cidades é justamente a possibilidade de ser o lugar do convívio, da integração. Não tenho dúvida de que as cidades podem ser mais sustentáveis. E acho que há bons exemplos no Rio: acho a Zona Sul ótima. E até mesmo Centro e Zona Norte são bons modelos. São Paulo também está fazendo um bom trabalho com o investimento em transportes de massa do Centro ao Morumbi. O problema ainda está nas periferias. O drama da cidade brasileira é a desigualdade em sintonia com esse desinteresse em fazer a cidade ser boa para todos.

A arquitetura não está globalizada demais?

A globalização da arquitetura sempre existiu. O que não quer dizer que não se valorizasse o regional. O modernismo pretendia ser universal. O pós-moderno reconhece o lugar. Há valores universais, mas nas últimas três décadas, há uma valorização do regional que é positiva porque estimula a diversidade. A gente quer reconhecer a beleza do outro.

Depois do modernismo, a arquitetura brasileira perdeu a identidade?

O modernismo brasileiro foi muito relevante para a arquitetura numa época que foi fértil também em outros terrenos: música, cultura. Mas entramos numa ditadura e isso tem reflexos importantes em diversas áreas, até porque as coisas são feitas de qualquer jeito. Aí, a inflação veio e dominou o pensamento de todo mundo. É muito difícil pensar para a frente, planejar, construir o futuro com um presente de grandes dificuldades. E logo que acaba a ditadura ainda vem a década perdida em relação a desenvolvimento e depois uma expansão que se deu rápido demais. Então, a arquitetura brasileira realmente sofreu com tudo isso.

O que há de bom na arquitetura que se faz hoje?

A grande obra da arquitetura brasileira nos últimos 20 anos é a incorporação das áreas pobres à cidade. O mundo inteiro reconhece esse trabalho que deu frutos até lá fora. Medelin fez um trabalho até melhor que o nosso. As UPPs mostraram que quando o estado está ausente, há terreno para a bandidagem. A arquitetura brasileira está num momento de recuperação do sentimento coletivo e da redução das desigualdades urbanas.

(O texto foi originalmente publicado no site do jornal O Globo, em 17 de agosto de 2014)


Artigos relacionados

GIFs malucos animam obras de grandes arquitetos

O blog 1week1project publicou uma série de imagens GIFs que brincam com as formas e volumes de diversas obras de arquitetura.

CAU/SP patrocinará projetos que valorizam Arquitetura e Urbanismo

O Conselho separou uma verba que ultrapassa um milhão de reais para financiar propostas que enalteçam a função social da profissão

A hora da cidade por José Borzacchiello da Silva

Coluna de José Borzacchiello da Silva para O Povo Online

Sem comentários

Escreva um comentário
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar esta postagem.

Escreva um comentário

Deixe uma resposta