Praça da Estação

Praça da Estação

De ambiente degradado a uma uma grande esplanada. De porto seco a espaço cultural. O projeto de revitalização da praça Rui Barbosa, no centro de Belo Horizonte deu tão certo, do ponto de vista dos grupos que a ocupam hoje, a ponto de gerar um conflito entre a demanda da população e a prefeitura de Belo Horizonte. Também conhecida como Praça da Estação, devido ao prédio histórico da estação ferroviária, a praça é frequentemente chamada de “praia” pelos mineiros que frequentam suas fontes nos dias quentes. Eventos de música também tomaram conta do espaço sob o viaduto de Santa Tereza.

 

A Praça da Estação pode ser considerada o ponto de ignição da cidade planejada de Belo Horizonte, seu primeiro espaço histórico. Em 1897, data da fundação da cidade, todos os novos moradores e trabalhadores chegavam pela estação de trem, tornando a praça adjacente uma espécie de porto seco. Este local foi o núcleo urbano inicial da nova capital das Minas Gerais.

 

A estação que conhecemos hoje foi construída em estilo eclético, em 1922, para substituir a estação original, que não dava mais conta do volume de passageiros e mercadorias. Em 1924, ela era abrigada pela então Praça Cristiano Otoni, que teve seu nome mudado para Praça Rui Barbosa em homenagem ao jurista e político baiano. Já o apelido Praça da Estação se manteve. Por ser ponto de chegada, também tinha uma grande importância mercantil, mas isso mudou a partir dos anos 40.

 

Com a modernização de Belo Horizonte, o deslocamento do pólo industrial para a zona oeste e a concorrência com o modal rodoviário, as linhas de trem ficaram obsoletas. Os passageiros minguaram juntamente com a importância da praça e da linha férrea. Toda a região central entrou em um período de decadência.

 

No entanto, foi também pelos trilhos que novos ares começaram a voltar a praça, nos anos 80. A estação de metrô Central trouxe fôlego à discussão sobre como recuperar o baixo centro da capital. O processo foi gradual e só teve resultados mais efetivos com a restauração do edifício histórico da estação de trem, em 2001, e as obras de revitalização do entorno. Houve recuperação das esculturas, construção da passarela central e restauração dos jardins. Onde era estacionamento virou esplanada, com a instalação de fontes secas. Essas fontes fazem esguichos de água em uma área sem delimitação, com apenas um rebaixamento suave para escoamento. As fontes da Praça da Estação eram ligadas duas vezes ao dia, e quando desligadas, o espaço ficava livre para ser usado normalmente. O projeto também organizou a iluminação principal, deslocada para as laterais do largo com postes e­speciais de grande altura, liberando toda a área central para a concentração de pessoas. O conjunto foi reinaugurado em 12 de Agosto de 2004, assinada pelos arquitetos Eduardo Beggiato, Edwirges Leal e Flávio Grillo.

 

Rapidamente a população começou a perceber a região da Praça da Estação de uma forma diferente e a ocupou com cultura e lazer. Grupos organizados em coletivos culturais, movimentos sociais, rodas de samba e blocos carnavalescos passaram a frequentar o espaço, mudando seu significado para a cidade. Mas isso gerou um conflito com a prefeitura. Em 2010, o prefeito em exercício decretou uma lei que limitava a utilização do espaço que, a princípio, era previsto no “Plano de Reabilitação de Belo Horizonte”.

 

Segundo o artigo do geógrafo Jean Cássio Lima, da Universidade Federal de Alfenas – MG, o projeto “Linha Verde”, concluído em 2007, uma via expressa para ligar o centro ao aeroporto, causou uma valorização acelerada na região central e desestimularia a presença de pessoas de classes mais baixas. Para ele, a atuação dos movimentos foi muito importante para pressionar o poder público, com destaque para o grupo “Praia da Estação”. O bloco carnavalesco promoveu festas para transformar a praça numa espécie de praia. Esse uso dado pela população levou a prefeitura a cortar a água das fontes.

 

Em protesto, os carnavalescos passaram a promover a “praia” mesmo assim, realizando vaquinhas para trazer um caminhão pipa e festejarem em trajes de banho contra a ordem da prefeitura. Os eventos eram sempre em torno de um tema sobre a ocupação do espaço público, sempre no verão. Mesmo com a pressão popular a prefeitura não voltou atrás com sua decisão e atualmente as fontes estão sem água. Isso não afastou os ocupantes da praça. Ela continua sendo palco de grandes concentrações populares, no carnaval, na Copa do Mundo e em grandes manifestações.

 

Outro espaço emblemático na apropriação cultural da região é o Viaduto Santa Tereza. Construído em 1929 com a intenção de ligar os bairros Floresta e Santa Tereza ao centro da cidade, sendo considerado um símbolo de modernidade da capital na época, sua parte inferior tem sido ocupada por diferentes atividades culturais. Ali figuram moradores de rua, o Duelo de MCs, os recentes eventos do “A Ocupação”, além de outros eventos espontâneos e organizados pela própria população.

 

A Praça da Estação faz parte de um Conjunto Arquitetônico composto pela Serraria Souza Pinto, Viaduto Santa Tereza, Museu de Artes e Ofícios, Centro Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais, Casa do Conde de Santa Maria, Edifício Chagas Dória e pela Escola de Engenharia da UFMG. O complexo foi tombado pelo IEPHA/MG.


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