Raul Juste Lores fala sobre a arquitetura de São Paulo

Raul Juste Lores fala sobre a arquitetura de São Paulo
Em entrevista à revista Casa e Jardim, o autor do livro recém-lançado São Paulo nas alturas, Raul Juste Lores revê o período batizado como “milagre arquitetônico” a partir dos prédios e dos personagens que desenharam a paisagem urbana da cidade

 

Por que decidiu contar esta história agora?

Quando comecei a pesquisar o Artacho Jurado, me encantou a história do sucesso repentino e me intrigou o fato de esse auge ter sido tão curto e com uma queda estrepitosa, com processos e prédios parados no meio. São Paulo poderia ter virado uma Chicago da América Latina: uma cidade de imigrantes, que não é capital, que cria sua imagem através da arquitetura mais moderna (no caso de Chicago, primeiro com os arranha-céus, depois com o modernismo da Bauhaus). Eu queria entender melhor o que aconteceu.

 

E por que através dos prédios?

O modernismo brasileiro deu muita ênfase às construções do governo. A gente fala demais da vanguarda e pouco da arquitetura que forma a paisagem da cidade.

 

Existe um edifício que seja o seu favorito?

O Conjunto Nacional. Tem calçadas generosas, o mesmo piso no interior e no exterior, sem muro, sem guarita ou catraca. Tem restaurante, livraria, escritórios e apartamentos. Ele não é ocioso; faz a cidade melhor.

 

Como você conta no livro, nos anos 1950 houve uma combinação favorável para o desenvolvimento do modernismo. O que foi decisivo para isso?

Havia demanda para morar nas áreas centrais, já que a classe média crescia loucamente. As faculdades de arquitetura eram recém-criadas, ser arquiteto era a profissão da moda. A arquitetura chegou antes do futebol e da bossa-nova como objeto de exportação, e esse fator “cool” é essencial para fazer a cabeça de clientes e investidores. Os incorporadores tateavam um mercado que não existia, dependiam desse saber e topavam arriscar.

 

A formação de uma identidade nacional entrava na equação do “construir com ousadia”?

O modernismo queria ser internacional, sem barreiras. O caixote de concreto sobre pilotis podia estar aqui ou em Nova York. De alguma maneira, isso ajuda os modernos brasileiros. Você podia tropicalizar o que já havia sido inventado na Europa, que era para onde a elite brasileira olhava primeiro. Por outro lado, existia uma exaltação da identidade nacional. Era um dos veículos políticos para falar: o Brasil chegou lá!

 

Artacho Jurado é uma figura emblemática, fazia um contraponto à estética predominante. Os projetos dele já anunciavam um mix na paisagem, que era o que as pessoas queriam consumir?

O Artacho era intuitivo. Percebeu os limites do modernismo mais austero, que vem de uma lógica protestante, de criar sem adornos, e ficou rico justamente no auge de Hollywood e do Technicolor porque tinha uma sensibilidade para cores, essa vida que parece um cenário. Ele vendia para a classe média. Fez poucos apartamentos para a classe alta. Isso o libertava de alguma maneira.

 

Mesmo assim, todos sentiram a crise?

O negócio imobiliário é, até hoje, muito sensível aos solavancos da economia. Você vendia apartamentos na planta e dependia das mensalidades dos compradores para construir. O aumento da inflação e da inadimplência afetou a todos. Com a construção de Brasília, o preço dos materiais de construção se elevou. E, quando um monte de construtoras entra em falência, a mensagem para a geração seguinte é: temos que fazer prédios simples e baratos e entregar rapidamente. Houve um mar de crédito com o BNH. Saiu-se de uma produção artesanal para uma realidade de fazer 30 prédios de uma vez. Começou a surgir um cenário genérico e a nossa legislação tem papel gigantesco nisso, pois desestimulou a inovação.

 

Quando São Paulo degringolou?

Começou em 1957 e piorou nos anos 1970, com o primeiro Plano Diretor e com a opção pelo rodoviarismo nos anos 1960. Você vai destruindo áreas da cidade para criar mais espaço para os carros. Nesse tipo de crescimento, os prédios deixam de ser multifuncionais. Você cria “bairro de moradia”, “bairro de trabalho”, como em Brasília.

 

Existe essa crítica ao urbanismo modernista, que desconsidera a escala humana do projeto. Mas e quanto aos prédios, eles envelheceram bem?

Sim, primeiro porque eram feitos com bons materiais e desenho sofisticado. Em segundo lugar, porque o jovem de hoje quer uma cidade mais parecida com a de quando esses prédios surgiram. Se você quer andar de bicicleta ou a pé, quer ter um café na esquina, eles são melhores do que Alphaville. O livro trata de uma época que tem muita coisa, para o bem e para o mal, parecida com a atual. Podemos aprender com o que fizemos bem.

 

Via Case e Jardim



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