É nas cidades desiguais que o futuro vai surgir

É nas cidades desiguais que o futuro vai surgir
Paulo Markun

 

Nos dias que correm, congressos e seminários profissionais costumam olhar mais para o umbigo de seus participantes que para a realidade em torno. Pautas específicas, demandas corporativas, especialização, tudo conspira para que as discussões e debates girem em torno do eixo daquela categoria específica e de suas demandas, sempre urgentes, prioritárias, essenciais – e registre-se ensimesmadas.

Pois o 21o Congresso Brasileiro de Arquitetos ,que aconteceu em Porto Alegre, de 9 a 12 de outubro, já começou deixando de lado esse vício, na conferência de abertura, a cargo da arquiteta e urbanista paulista Erminia Maricato, de 72 anos.

A arquitetura não foi sua primeira escolha: no segundo grau, fez Química Industrial e chegou a iniciar a Faculdade de Física na Universidade de São Paulo por ter facilidade com matemática, antes de entrar para a FAUUSP em 1967, num momento agitado e turbulento do nosso país.

Mestre em 1977 e doutora em 1984, envolveu-se com a política, desde a fundação do Partido dos Trabalhadores e na Constituinte de 1988 defendeu a proposta de reforma urbana de iniciativa popular. Na gestão da prefeita Luisa Erundina, assumiu a secretaria de Habitação e Desenvolvimento Entre 1998 e 2002, foi secretária executiva do Ministério das Cidades, que ajudou a gestar.

 

Reprodução; CAU

Mas o que disse, afinal, Ermínia Maricato na abertura do Congresso Brasileiro de Arquitetos? Que as nossas cidades, que já abrigam 85% da população, continuam reproduzindo a lógica da casa grande e senzala. E apesar disso, será a partir delas que virá a reconquista da democracia.

Erminia louva e reconhece o ciclo virtuoso em que os orçamentos participativos ganharam espaço e onde parecia mais próximo o horizonte em que os moradores das cidades brasileiras teriam seus direitos elementares assegurados. Mas admite que esses avanços foram poucos, diante da submissão do urbanismo ao automóvel e sua lógica e de uma verticalização determinada pela especulação imobiliária, acima de tudo.

Ao colocar a política e suas escolhas acima das competências profissionais de arquitetos e urbanistas, Erminia deixou de lado a caixinha a que muitos especialistas tentam condicionar as discussões, eliminando arestas, amaciando a conversa, para ser mais claro.

Perguntei a ela, depois da conferência, se é é possível resolver os problemas urbanos e das nossas cidades fora da política, apenas pela técnica? Erminia não titubeou:

“Evidentemente a competência técnica é muito importante para resolver problemas ligados ao ambiente construído mas a desigualdade social no Brasil é tão gigantesca, e isso marca de tal forma nossas cidades (embora essa realidade permaneça relativamente ‘invisível’), que é impossível fugir à questão da dominação política quando se debate o direito à cidade (e à arquitetura) para todos. As cidades são um grande negócio que tem a captura  das rendas fundiárias e imobiliárias como nexo central de modernidade e atraso, enriquecimento e exclusão. A maior parte da população urbana está excluída do direito à cidade, ou seja, uma boa localização urbana, moradia digna, transporte, equipamentos sociais…porque nem o Estado e nem o mercado atendem às necessidades ligadas à habitação. É como se a maior parte da cidade não existisse para arquitetos, engenheiros, advogados. Ela é ilegal, ela é insalubre, ela é abandonada pelo Estado. No entanto nós temos leis avançadas, nós temos competência técnica e nós temos inclusive experiência! “

Quis saber ainda se há como mobilizar a sociedade que parece anestesiada para as questões das nossas cidades?

Ela foi otimista: “Sim! Nós ficamos conhecidos no mundo inteiro pelos governos democráticos e populares do que eu chamo de “Ciclo Virtuoso” da política urbana nos poderes locais (anos 80 e 90 especialmente). Os arquitetos foram muito importantes nesses governos. Muitos se tornaram prefeitos, vereadores, deputados…O Rio fez o maior programa de urbanização de favela do mundo sob a gestão de um arquiteto. Na Conferencia da ONU Habitat II em Istambul, 1996,  o Brasil teve destaque com nossas experiências exitosas. Enfim, é preciso resgatar essa memória de quando estávamos engajados socialmente e territorialmente, negando a alienação histórica que nos torna subordinados a fetiches das ideias dominantes. 

Há um enorme número de iniciativas que apontam para um novo ciclo inovador e sem dúvida, democrático. As universidades estão apostando nas atividades de extensão universitária: levar os alunos ao encontro de problemas colocados pela realidade urbana e habitacional e propor soluções com participação da comunidade. Muitas entidades profissionais, muitas ONGs, especialmente de jovens arquitetos e arquitetas se envolvem com melhoria habitacional, produção de novas moradias, regularização fundiária, urbanização de áreas precárias, etc. Os novos personagens que participam da luta anti racista e feminista trazem novos olhares para a arquitetura e a cidade como mostra o CAU SC. Idem os jovens das periferias envolvidos com atividades culturais como mostra a moçada do Recife. Enfim, há muita coisa nova acontecendo mas é preciso estar atento para vê-las”. 

Engajada totalmente na rede BrCidades- Um Projeto para as Cidades do Brasil (https://www.brcidades.org), Erminia Maricato conclama: “Precisamos, nós arquitetos, sair da bolha, deste espaço restrito que ocupamos,  e falar para a sociedade como nosso trabalho é importante  e poderia mudar o país. “   



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